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Apr
MP investiga organização que administra unidades de saúde por falta de médicos e problemas em SP

O Ministério Público de São Paulo está investigando a situação de unidades de saúde e o pronto-socorro de Santana, um dos mais importantes da Zona Norte de São Paulo. As unidades são administradas pelo IABAS (Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde) – uma organização social que recebeu da prefeitura da capital de São Paulo a administração de 69 entidades de AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) e UBSs (Unidades Básicas de Saúde).

 

Segundo funcionários e médicos, desde que o IABAS assumiu o serviço, o atendimento à população piorou muito. Funcionários registraram até um boletim de ocorrência para denunciar o que eles chamam de situação de calamidade.

 

O IABAS recebe R$ 21 milhões por mês da prefeitura para gerenciar 69 unidades de saúde, entre UBSs, AMAs e um pronto-socorro, todas espalhadas pela Zona Norte e o centro da capital. O promotor de Justiça que está apurando o caso, Arthur Pinto Filho, critica a forma como a prefeitura fiscaliza a entidade.

 

“O controle de gastos das organizações sociais é muito ruim. Durante anos, a estrutura da prefeitura para a verificação desses gastos, era formado por 4 profissionais. Então, se verifica apenas se a organização prestava contas ou não”, afirmou o promotor.

 

O pronto-socorro de Santana faz em média 400 atendimentos por dia. Em julho de 2016, nove médicos fizeram um abaixo-assinado denunciando que o IABAS havia reduzido o número de profissionais na unidade: corte de 33% e também reduziu pela metade o número de médicos à noite. Só o PS Santana custa mais de R$ 1,2 milhão por mês para a prefeitura.

 

“Está ocorrendo infestação de barata, tendo rato dentro do pronto-socorro. Tem um cheio terrível de esgoto que sai perto da pediatria”, afirmou um médico que atua há muitos anos no Pronto-Socorro Lauro Ribas Braga, conhecido como PS Santana, na Zona Norte, onde a situação é crítica. No local há pacientes deitados em macas de ambulância, porque faltam camas, e na sala de emergência a parede parece mofada e há também pessoas deitadas no corredor.

 

Uma enfermeira conta que o material que está sendo usado “é de péssima qualidade, e que, às vezes falta bastante medicação”. Em um dia, não havia ortopedista durante o período diurno.

 

“Houve redução dramática do número de funcionários, foi cortado vários funcionários, médicos, enfermagem. Material de má qualidade. A situação como um todo está muito ruim trabalhar”, afirmou o médico.

 

O documento do boletim de ocorrência dos médicos e funcionários diz ainda que não há reposição de quem sai de férias ou licença e que, por isso, há falta constante de cirurgiões, ortopedistas e pediatras. Os médicos fizeram um boletim de ocorrência sobre a falta de enfermeiros, medicamentos, insumos, leitos e apontaram que a situação no pronto-socorro é de calamidade.

 

Com a situação ruim, o atendimento não pode ser bom. O garçom Felipe Martins pisou em um prego, foi atendido, mas teve que voltar. “Devo ter esperado entre 3 e 4 horas pelo atendimento. Em menos de 10 minutos fui dispensado. Meu pé continuou inchado e pedi até dispensa do serviço para poder vir novamente ver. Foi onde o próprio médico falou para mim que fizeram o procedimento errado”, afirmou ele.

 

Problemas de atendimentos na Sé

Os pacientes confirmam a situação ruim em outras unidades do Centro de São Paulo. “A gente marca para fazer exame e dizem que não tem as coisas pra fazer exame”, afirma a aposentada Arenilda da Silva, que esteve no prédio em que fica a AMA e a UBS da Sé, no Centro de São Paulo.

 

Foi o segundo dia consecutivo que ela tentou fazer o exame. “Tem que marcar para daqui a 3 meses. Quando é daqui a 3 meses a gente vem e não faz”, afirma ela.

 

A unidade também está sem aparelho de raio-x há uma semana. Só em março, houve mais de 1.800 denúncias na ouvidoria da prefeitura sobre reclamações do atendimento na UBS e AMA da Sé.

 

No prédio, os corredores estão cheios de adultos e crianças, alguns sentados em cadeiras com estofado rasgado. Nos banheiros, portas quebradas, chão suco e pregos no lugar de trincos. Luminárias estão sem lâmpada e privadas sem assento. Falta papel higiênico e sabão.

 

Unidade fechada na República

Ao lado do prédio da prefeitura, no centro de São Paulo, há uma UBS que atende moradores da região da República. Só que a unidade está fechada, com um cartaz de que estão trabalhando para normalizar o atendimento. Quem tem consulta marcada é levado de van para um núcleo de assistência no Cambuci. Quem busca medicação ou vacinas, deve ir até a UBS da Sé, localizada a 2,5 km do local.

 

Pela janela do UBS é possível ver equipamentos médicos, como balança para bebês e estetoscópio. Pacientes falaram que o motivo do fechamento é uma obra. O teto está sem forro, mas não há sinal de obras no local.

 

Situação problemática, diz promotor

O promotor que investiga a coordenação das unidades de saúde pelo IABAS diz também estar surpreso com as reclamações dos médicos. “É muito raro um médico informar uma situação de agravo no lugar em que ele trabalha. É muito raro isso. E isso tem ocorrido muito sistematicamente nos locais administrados pelo IABAS”, afirmou. ““O que se percebe é que de fato as unidades administradas pelo IABAS, elas tem uma situação problemática, Em tese, e no geral, maior do que aquelas que apresentam as demais organizações sociais”, salientou

O que dizem o IABAS e a secretaria municipal de Saúde

A assessoria do IABAS afirmou que os problemas mostrados, como a falta de sabão e papel higiênico nas unidades de saúde, são pontuais e que isso já foi corrigido. A organização não comentou a investigação do Ministério Público sobre a qualidade do serviço.

 

O secretário municipal de Saúde, Wilson Pollara, disse que está melhorando a fiscalização das organizações sociais responsáveis pelas unidades de saúde, entre elas o IABAS. Segundo Pollara, está sendo implantado um sistema que ajudará a controlar pela internet e também punir organizações que não atendem bem à população, mas não deu prazo para que os problemas sejam solucionados.

 

Fonte: G1 SP