27/
Apr
Por que ser médico se transformou em uma das profissões mais miseráveis?

Certo dia eu estava traduzindo o texto a seguir, por considerá-lo uma leitura perfeita da profissão de médico no Brasil. A reportagem de Daniela Drake para o jornal norte americano The Daily Best demonstra o porque 9 em cada 10 médicos não recomendam que outras pessoas façam medicina.

 

Nestes quatro anos de profissão já vi alguns colegas perderem a vida em estradas, por estarem voltando cansados de plantões ou simplesmente por estarem no lugar errado na hora errada. Mais do que nunca é oportuno mostrar as nossas dificuldades como profissionais médicos. As condições que estamos expostos, a falta de tempo, a quantidade absurda de pacientes que atendemos em lugares insalubres onde o interesse vigente é o lucro das prestadoras de serviços médicos ou a politicagem local.

 

Na reportagem a seguir você verá que isso não é uma exclusividade brasileira, e que para melhorar a medicina devemos procurar a empatia… Não apenas por nossos pacientes, mas a empatia deles para conosco.

 

O texto a seguir é uma tradução livre, para ler o original, em inglês no The Daily Best, clique AQUI

Por que ser médico se transformou em uma das profissões mais miseráveis.

Nove em cada 10 médicos desencorajam outras pessoas para seguirem a profissão, e 300 médicos cometem suicídio todos os anos.

 

Quando que ser médico ficou tão ruim? Até o fim do ano é esperado que 300 médicos cometam suicídio [nos EUA]. Enquanto sabemos que a depressão entre médicos não é algo novo ( há alguns anos, foi eleita a segunda ocupação com mais suicidas), o nível da pura infelicidade entre os médicos está em ascensão.

 

Simplificando, ser médico se tornou uma tarefa miserável e humilhante. De fato, muitos médicos acreditam que os Estados Unidos declararam guerra aos médicos – e ambos, médicos e pacientes, são os perdedores.

 

Não surpreende o fato de muitos médicos mudarem de atividade. Estudantes optam por especialidades de alta remuneração somente para aposentarem-se mais cedo. Programas de MBA, que prometem um caminho para trabalhar na gestão [hospitalar e de empresas], tem suas salas de aula lotadas de médicos. O site conhecido como “Drop-Out-Club“, que conecta médicos a empreendedores e fundos de investimento, tem um grande número de seguidores (acabei de me cadastrar). De fato, médicos estão  tão chateados, que 9 em cada 10 médicos desencorajam outras pessoas a entrar na profissão.

 

É muito difícil alguém de fora da profissão entender  o como a medicina ficou tão apodrecida, e o quanto isto é uma má notícia para o sistema de saúde norte americano. Talvez seja por isso que o autor Malcolm Gladwell assinalou que, para consertar o sistema de saúde, o público (os pacientes) deve entender como é ser um médicos. Imagine, para as coisas serem melhores para os pacientes, eles tem que empatizar com os médicos – esta é uma demanda gigante nos nossos nocivos e não-empáticos tempos.

 

Apesar de tudo, o público vê oftalmologistas e radiologistas procrastinando feito bandidos e se perguntam o porque devem sentir algo além de escárnio por esses especialistas, especialmente enquanto americanos não tiveram aumento [salarial] em décadas. Lembrem-se que ser um médico da atenção primária não tem nada a ver com ser um cirurgião plástico – um profissional que garante tanto respeito como uma boa aposentadoria. Já que o médico da atenção básica faz um trabalho que ninguém mais quer fazer, ser um médico de família é como ser um zelador, mas sem o estatus social ou a proteção de um sindicato.


Infelizmente as coisas estão apenas ficando piores para a maioria dos médicos, especialmente para aqueles que aceitam planos de saúde.  Apenas registrando que cada consulta o plano paga em torno de $58 dólares, de acordo com o Dr. Stephrn Schimpff, clínico geral e CEO do University of Maryland Medical Center, que está escrevendo um livro sobre a crise no atendimento primário. Para pagar as contas, os médicos estão atendendo um paciente a cada 12 minutos.

Nem os pacientes, nem os médicos estão felizes com isso. O que preocupa muitos médicos entretanto, é que o “Affordable Care Act” [a lei do Obama para o sistema de saúde americano] está transformando este sistema falido em lei. Ao forçar a todos a comprar um plano de saúde, o ACA pode ter encomendado uma linha uniforme e simplificada que leva a um longo cominho para a melhoria do acesso à saúde. Como Gladwell notou: ” Você não pode treinar alguem por todos esses anos na medicina para que eles executem apenas operações para as empresas de planos de saúde”.

De fato, as dificuldades de lidar com os planos de saúde levou os médicos a fecharem seus consultórios para ir trabalhar para os planos de saúde.  Para os pacientes, consultarem-se com um médico empregado não significou maior tempo de consulta, pois estes profissionais possuem agenda completa. “Uma agenda de aproximadamente 2000 a 2500 pacientes é demais”, diz o Dr. Schimpf. Esse é o número de pacientes que médicos da atenção básica são obrigados a manejar. Isso significa ver 24 ou mais pacientes por dia, e frequentemente, eles tem 10 ou mais problemas de saúde. Qualquer médico sabe que isso dá pra ser feito, porém é certamente longe do ótimo.

 

A maioria dos pacientes já devem ter experimentado “consultas a jato”, e é aí que está o colapso no bom atendimento médico. “Médicos que estão com pressa não tem tempo para ouvir”, diz o Dr. Schimpff. “Com frequência os pacientes serão referenciados a especialistas quando o problema pode ser resolvido naquela visita”. É verdade que a referência a um especialista está em ascensão, mas a falta de tempo também faz com que os médicos trabalhem com  diretrizes em vez de dar uma atenção individualizada. Infelizmente, guidelines estáticos pode resultar em más condutas.

 

Ainda, médicos devem seguir, constantemente tentando melhorar sua “produtividade” e índices de satisfação dos pacientes – ou diminuir suas chances de serem demitidos. O líderes dessa indústria fixam-se nos índices de satisfação dos pacientes, sem lembrar que esses “bons” índices correlacionam-se com piores serviços e custos mais altos.  Realmente, tentar agradar a todos os pacientes que chegam destroi a integridade do nosso trabalho. É fato que os médicos aceitam algumas das demandas dos pacientes – para remédios, raios X e receitas – sem levar em conta os indicadores. E agora os pagamentos do Medicare serão atrelados à satisfação dos pacientes – este problema será ainda pior. Médicos precisam ter a habilidade de dizer não. Se não, ao invés do paciente ir a uma consulta, eles não terão um médico, terão sim um refém.

 


O médico da atenção básica não tem o poder político de dizer não a nada – então a lista de afazeres continua a alongar. Um número impressionante e incontrolável de formulários, muitas vezes ilegíveis – aparecem diariamente na mesa do médico, com a necessidade de serem assinados. Resmas de resultados de laboratório, e-mails e chamadas de retorno aparecem continuamente na tela do computador. Telefonemas para explicar condutas as companhias de seguros são frequentes ao longo do dia. Cada decisão traz consigo uma ameaça implícita de litígio em imperícia. Deixar de comparecer a estas coisas traz medidas disciplinares prontas ou queixas dos pacientes. E sem piedade, todas essas tarefas tem de ser feitas no tempo “livre” do médico exausto.

 

Quase que comicamente, a resposta das lideranças médicas é chamar para mais testes. Na verdade, o Conselho Americano de Medicina Interna (ABIM), em seu próprio ato de tomada de reféns, decidiu que, além de serem testados a cada dez anos, os médicos devem estar de acordo com as novas, caras, “two year milestones [comprovação da educação médica continuada].” Para muitos médicos, se eles não fazerem tais testes até o fim deste mês, a ABIM vai anunciar “a falta de cumprimento” do médico em seu site.

 

Numa época em que os profissionais de enfermagem e assistentes de médicos [ essa profissão não é regulamentada no Brasil – Physician Assistent] têm mostrado que eles podem fornecer um excelente atendimento primário,  é sem sentido levantar as barreiras para os médicos. Numa época em que você pode procurar orientações em seu smartphone, exigir mais testes aos médicos é uma resposta absurda e des-serviço

 

É absurdo. É punitivo. É errado.  E, praticamente, os médicos não podem fazer nada sobre isso. Não admira que médicos sejam suicidas. Não admira que jovens médicos não querem nada com a atenção primária.

 

Certamente, a cobertura da imprensa é  implacavelmente negativa contra os médicos, e ela dá o tom. “Há uma narrativa da mídia que culpa os médicos, por coisas que o médico não tem controle”, diz Kevin Pho, MD, um clínico geral com um blog popular, onde os médicos muitas vezes desabafam suas frustrações. De fato, na imprensa popular recentemente responsabiliza por tudo, desde a quantidade de cadeira de rodas até pelas taxas de laboratório para os testes de Papanicolaou.

 

A ideia de que os médicos estão fugindo de algo e de que precisam de treinamento constante, observados e regulamentados, tem sido amplamente espalhada. Com isto em mente, é quase um reflexo para os políticos se debruçarem sobre os regulamentos. Regular o médico é uma venda fácil, porque é uma fantasia, uma febre freudiana, um sonho. É o desejo de abrandar, punir e controlar um familiar decepcionado, dar-lhe cartão de relatório, e dizer-lhe para lavar as mãos.

 

Há a certeza de que muitas pessoas com boas intenções estão trabalhando para resolver a crise de saúde. Mas as respostas que eles apresentam estão elevando os custos e descaracterizando os médicos. Talvez seja pedir demais por empatia, e talvez a vida dos médicos não importa para a maioria das pessoas.

Mas para a saúde dos Estados Unidos ser salvaguardada, o bem-estar dos cuidadores dos Estados Unidos vai ter que começar a importar a alguém. 

 

Fonte: Academia Médica