04/
May
Você acredita mais no seu médico ou na sua manicure?

"Os médicos sofrem concorrência desleal do Google, dos amigos, vizinhos e, principalmente, das manicures. Com 35 anos de profissão, não consigo ser tão convincente para indicar um tratamento como as manicures".

O desabafo de Artur Katz, coordenador de oncologia do Hospital Sírio-Libanês, durante o "Fórum A Jornada do Paciente com Câncer", promovido pela Folha na semana passada, me remeteu a um episódio familiar.

Minha mãe era hipertensa e sempre teve elevadas taxas de LDL, o colesterol "ruim". Ia regularmente ao cardiologista e eu estava certa de que ela sempre havia cumprido à risca as recomendações médicas. Só que não.

Um dia, numa conversa, ela me revelou que, no início do tratamento, como não tinha sintomas da hipertensão, descuidava do medicamento. Disse que só começou a usá-lo religiosamente depois que a Vera, a nossa "cabeleireira de família", lhe alertou: "Esse é o único remédio que você não pode esquecer de tomar nunca. Mesmo não sentindo nada, a pressão alta pode causar um derrame." Pronto. Ela nunca mais esqueceu do remédio.

Por essa e outras razões, eu acredito que os médicos e a saúde como um todo ganhariam muito se, em vez de encararem manicures, cabeleireiras e afins como "concorrentes desleais", as enxergassem como aliadas em ações de promoção e prevenção de saúde.

Se as manicures conseguem ser mais convincentes que os médicos, como disse o dr. Katz, não são elas as erradas. Pelo contrário. Elas deveriam ser convidadas a atuarem como agentes informais de saúde. Se recebessem uma capacitação adequada mínima, poderiam multiplicar informações sobre as boas práticas de saúde, ajudar a derrubar falsos mitos e por aí vai. Imaginem quanta coisa boa não poderia ser passada entre a retirada de uma cutícula e outra? Entre um esmalte e outro? Ou é muita viagem minha?

Os médicos têm, sim, muito a aprender sobre como se comunicar com seu paciente e, principalmente, como ter mais empatia, qualidades que a maioria das manicures e cabeleireiras tem de sobra.

Hoje há várias instituições de saúde investindo na melhoria da comunicação entre médico e paciente e buscando novas ideias na sociedade de como ter mais eficácia nessas iniciativas.

O Simpósio Internacional de Qualidade e Segurança do Paciente, que aconteceu na semana passada em São Paulo, deu bastante ênfase nessa questão da comunicação, com debates e palestras sobre comunicação não-verbal, empatia e necessidade de o profissional aprender a escutar o paciente.

A médica Cristiane Benvenuto, por exemplo, discutiu sobre o tema informação e mudança de comportamento. E disse que os médicos poderiam aprender muito com blogueiras/blogueiros sobre estratégias de comunicação.

Sobre a concorrência desleal com o Google que muitos médicos adoram citar, existe uma iniciativa em curso para conferir mais qualidade ao conteúdo de saúde disponível na rede.

Ano passado, o Hospital Albert Einstein e o Google lançaram um novo serviço ao usuário: quadros com informações de saúde revisados pelo hospital.

Ao buscar pelas principais doenças e sintomas, o usuário receberá no topo do resultado de busca esse quadro com informações.

O mundo mudou e a forma como as pessoas têm acesso a dados sobre saúde, também. E os médicos precisam estar mais bem preparados para essa nova realidade, tendo pessoas e novas tecnologias como aliadas, não como concorrentes. 

 

Fonte: Claúdia Collucci, Folha de SP.