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Planejamento sucessório no fim do ano: por que organizar o patrimônio antes do "inverno" da sua empresa

Planejamento sucessório no fim do ano: por que organizar o patrimônio antes do "inverno" da sua empresa

Dra. Giovanna Trad

27 de maio de 2026
5 min de leitura
almost winter outfits

A imagem do fim do outono — quando os dias esfriam, mas ainda há tempo de escolher um bom casaco antes do inverno chegar — serve como metáfora precisa para um movimento que poucos empresários e profissionais liberais fazem com a antecedência devida: o planejamento patrimonial e sucessório.

Esperar o "inverno" — a doença grave, o litígio familiar, a fiscalização inesperada ou o falecimento — é encarar a tempestade sem o agasalho certo. E, no Direito brasileiro, improvisar custa caro.

Por que o fim do ano é o momento estratégico

O encerramento do exercício fiscal não é apenas data contábil. É um marco jurídico que reorganiza obrigações tributárias, base de cálculo do ITCMD em vários estados, balanços societários e, muitas vezes, a janela para reestruturações sem custo proibitivo.

Alguns fatores tornam o período entre outubro e dezembro especialmente sensível:

  • Possíveis alterações na alíquota do ITCMD: a PEC 45/2019 e sua regulamentação (LC 214/2025) trouxeram a obrigatoriedade da progressividade do ITCMD em todos os estados. Diversas unidades federativas já discutem aumentar a alíquota máxima do atual teto de 8% para algo próximo de 16% a 20%. Doações realizadas antes da vigência da nova lei estadual seguem, em regra, a alíquota anterior.
  • Apuração do IRPF e IRPJ do ano-base: integralizações de bens, holdings e reorganizações societárias precisam estar formalizadas antes de 31/12 para produzir efeitos no exercício.
  • Balanço de fim de ano: é o retrato que orienta avaliação de quotas, partilhas e doações com reserva de usufruto.

O que está em jogo quando não há planejamento

Vamos a um exemplo prático. Um produtor rural com fazendas em três estados, faturamento via pessoa física e patrimônio de R$ 30 milhões falece sem testamento nem holding. O que acontece?

  1. Inventário judicial ou extrajudicial — média de 18 a 36 meses, com custas, honorários e ITCMD em cada estado onde há imóvel.
  2. ITCMD potencialmente majorado — se a sucessão ocorrer após a nova lei estadual, a família pode pagar o dobro do que pagaria com doações planejadas hoje.
  3. Bloqueio operacional — sem procuração ou estrutura societária, a atividade rural para. Safra perdida, contratos rompidos, financiamentos vencidos.
  4. Conflitos familiares — herdeiros com visões distintas sobre continuidade do negócio levam disputas ao Judiciário.

O mesmo raciocínio vale para o médico com clínica própria, o empresário com participação em várias sociedades e o investidor com imóveis urbanos.

Instrumentos disponíveis (e quando usar cada um)

Holding familiar ou patrimonial

Concentra bens e participações em uma pessoa jurídica, permitindo doação de quotas com reserva de usufruto, definição de regras de governança via acordo de sócios e proteção contra eventos pessoais dos herdeiros (divórcio, dívidas, falência).

Indicada para patrimônios diversificados, atividades empresariais em curso e famílias com mais de um herdeiro.

Doação com reserva de usufruto

O titular doa a nua-propriedade dos bens aos herdeiros, mas mantém o usufruto vitalício — continua administrando e recebendo frutos. Antecipa a sucessão, evita inventário sobre aqueles bens e, se feita antes da majoração do ITCMD, garante alíquota menor.

Testamento

Subutilizado no Brasil, é instrumento de baixo custo que disciplina a parte disponível do patrimônio (50%, quando há herdeiros necessários), nomeia testamenteiro e evita litígios. Combinável com qualquer outra estrutura.

Pacto antenupcial e alteração de regime de bens

Define o que entra ou não na comunhão, protegendo o patrimônio constituído antes do casamento e separando atividades de risco do patrimônio familiar.

Previdência privada (VGBL/PGBL)

Em regra, não integra o inventário e tem tratamento tributário próprio. Pode compor liquidez imediata para a família arcar com despesas do espólio.

O caso do agronegócio: atenção redobrada

Produtores rurais enfrentam particularidades severas:

  • Bens espalhados em mais de um estado, com ITCMD próprio em cada um.
  • Atividade contínua que não admite paralisação por inventário.
  • Financiamentos com garantias reais e cédulas de produto rural vinculadas à pessoa do produtor.
  • Sucessores nem sempre interessados em manter a atividade.

A estruturação via holding rural, combinada com contratos de arrendamento, parceria agrícola e acordo de sócios bem desenhado, é hoje o caminho mais eficiente — desde que feita com atenção às regras do ITR, da Receita Federal sobre integralização de imóveis rurais e da legislação estadual sobre ITBI e ITCMD.

Erros recorrentes que vemos no escritório

  • Holdings montadas só com objetivo fiscal, sem governança nem acordo de sócios — geram brigas piores do que o inventário evitaria.
  • Doações sem reserva de usufruto quando o doador ainda depende daquela renda.
  • Subavaliação de bens na integralização, gerando autuação posterior por ganho de capital.
  • Esquecer dos bens no exterior, que seguem regras próprias (Lei 14.754/2023) e tributação específica.
  • Adiar a decisão esperando "o ano que vem", justamente quando a alíquota do ITCMD pode subir.

O agasalho certo se escolhe com tempo

Planejamento sucessório não é produto de prateleira. Cada família e cada empresa exigem diagnóstico do patrimônio, mapeamento dos riscos, projeção tributária e desenho de governança. Estruturas mal feitas custam mais caro do que a ausência de estrutura.

O momento de revisar — ou começar — é agora, antes que mudanças legislativas e eventos pessoais imponham custos que não precisariam existir.


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