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Insegurança jurídica em PMMA e peeling de fenol: o que está em jogo para médicos e pacientes

Insegurança jurídica em PMMA e peeling de fenol: o que está em jogo para médicos e pacientes

Dra. Giovanna Trad

02 de junho de 2026
5 min de leitura
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A discussão sobre procedimentos como o preenchimento com PMMA (polimetilmetacrilato) e o peeling de fenol expõe um dos maiores problemas enfrentados pela classe médica nos últimos anos: a ausência de critérios uniformes sobre quem pode realizar determinados atos e em quais condições. O resultado é um cenário de insegurança jurídica que prejudica profissionais sérios, confunde pacientes e abre espaço para litígios desnecessários.

O cenário atual: regulamentação fragmentada

A regulamentação dos procedimentos estéticos no Brasil é marcada por uma sobreposição de normativas conflitantes. De um lado, o Conselho Federal de Medicina (CFM) edita resoluções restringindo determinados procedimentos a médicos com formação específica. De outro, conselhos de outras categorias profissionais ampliam o escopo de atuação de seus inscritos, incluindo intervenções invasivas.

No caso do PMMA, a Resolução CFM nº 2.292/2021 (e atos posteriores) estabelece critérios rigorosos para o uso do produto, considerando seu caráter permanente e o risco de complicações graves, como granulomas, infecções e deformidades.

No peeling de fenol, a controvérsia é ainda mais aguda. Trata-se de procedimento com potencial cardiotóxico, hepatotóxico e nefrotóxico, exigindo monitorização cardíaca contínua. Apesar disso, frequentemente é divulgado em redes sociais como técnica simples, executada em ambientes sem qualquer suporte clínico adequado.

Por que existe insegurança jurídica?

A insegurança decorre de três frentes principais:

1. Conflito entre conselhos profissionais

Resoluções de conselhos distintos disputam o mesmo território normativo. O Judiciário, provocado por ações civis públicas e mandados de segurança, tem proferido decisões divergentes em diferentes estados, o que impede a consolidação de um entendimento nacional uniforme.

2. Ausência de lei federal específica

Não há, no Brasil, uma lei federal que delimite com clareza quais procedimentos estéticos invasivos são privativos do ato médico. A omissão legislativa transfere ao Judiciário um debate que deveria ser resolvido pelo Congresso Nacional, gerando decisões pontuais e contraditórias.

3. Publicidade descontrolada nas redes sociais

A divulgação massiva de procedimentos por profissionais sem habilitação adequada, somada à banalização dos riscos, cria uma falsa percepção de segurança. Quando algo dá errado, o médico que atuou dentro dos protocolos acaba arrastado para discussões éticas e judiciais junto com quem agiu de forma temerária.

Consequências práticas para o médico

O profissional que realiza PMMA ou peeling de fenol — mesmo seguindo rigorosamente os protocolos técnicos — está exposto a:

  • Processos éticos no Conselho Regional de Medicina, especialmente quando há complicações ou denúncias de pacientes;
  • Ações cíveis indenizatórias, com pedidos elevados de danos morais, estéticos e materiais;
  • Ações penais, em casos de lesão corporal culposa ou, em situações extremas, dolo eventual;
  • Bloqueio de bens em fase de cumprimento de sentença, quando há condenação;
  • Repercussão reputacional, com exposição em mídias e perda de pacientes.

Um exemplo prático: médico dermatologista que realiza peeling de fenol em consultório sem retaguarda anestésica adequada pode ser responsabilizado mesmo que o paciente tenha assinado termo de consentimento, caso o procedimento seja considerado realizado fora dos padrões mínimos de segurança.

Consequências para o paciente

Do lado do paciente, o problema é igualmente grave. A dificuldade em identificar quem está habilitado a realizar cada procedimento, somada ao marketing agressivo, leva muitas pessoas a se submeterem a intervenções em condições inadequadas. Quando ocorre dano:

  • A reparação civil pode ser demorada e insuficiente;
  • A reversão de complicações do PMMA é, em muitos casos, parcial ou impossível;
  • O paciente enfrenta longas batalhas judiciais para comprovar o nexo causal entre o procedimento e o dano.

Como o médico pode se proteger juridicamente

Diante desse cenário, algumas medidas são essenciais:

Documentação clínica robusta

Prontuário detalhado, com anamnese completa, fotografias pré e pós-procedimento, registros de orientações e eventuais intercorrências. Em juízo, o prontuário mal preenchido é frequentemente decisivo para a condenação.

Termo de consentimento livre e esclarecido qualificado

Não basta um termo genérico. O documento deve descrever o procedimento específico, alternativas, riscos individualizados, possibilidade de complicações e limites do resultado esperado.

Estrutura adequada

Procedimentos como peeling de fenol exigem ambiente com monitorização cardíaca, acesso venoso, suporte para emergências e equipe treinada. A ausência dessa estrutura é, por si só, elemento de responsabilização.

Seguro de responsabilidade civil profissional

Apólice específica para a especialidade, com cobertura compatível com o valor médio das indenizações praticadas na jurisprudência atual.

Cuidado com a publicidade médica

A Resolução CFM nº 2.336/2023 restringe sensivelmente a publicidade médica, especialmente em redes sociais. Postagens com promessas de resultado, antes e depois, e divulgação de técnicas sem base científica consolidada são frequentemente usadas contra o médico em processos.

Assessoria jurídica preventiva

A análise prévia de contratos, termos, fluxos de atendimento e materiais de marketing reduz drasticamente o risco de litígios. O custo da prevenção é incomparavelmente menor que o de uma defesa judicial.

O caminho da segurança jurídica

A solução estrutural depende de avanços legislativos e da pacificação da jurisprudência nos tribunais superiores. Enquanto isso não ocorre, cabe ao médico adotar postura defensiva e tecnicamente irrepreensível, e ao paciente buscar profissionais devidamente habilitados, em ambientes adequados.

A insegurança jurídica não é problema apenas de quem atua na linha de frente — é uma falha sistêmica que exige resposta coletiva da classe médica, dos conselhos e do Poder Público.


O escritório Trad & Cavalcanti Advogados atua há quase três décadas na defesa de médicos e clínicas em questões éticas, cíveis e criminais relacionadas ao exercício profissional. Se você tem dúvidas sobre como estruturar sua atuação ou enfrenta um processo decorrente de procedimentos estéticos, nossa equipe está à disposição para uma análise técnica do seu caso.

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