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Médico PF vs. médico PJ vs. holding médica: simulação real de quanto você paga em cada cenário

Médico PF vs. médico PJ vs. holding médica: simulação real de quanto você paga em cada cenário

Dra. Giovanna Trad

25 de maio de 2026
7 min de leitura
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Por que comparar os três cenários antes de decidir

Médicos brasileiros operam, na prática, sob três regimes distintos de tributação — e a diferença entre eles pode ultrapassar R$ 80 mil por ano em impostos sobre o mesmo faturamento. Antes de tomar qualquer decisão patrimonial, é fundamental visualizar números reais.

A simulação a seguir parte de um cenário comum: um médico com faturamento bruto de R$ 25.000 por mês (R$ 300.000 por ano), atuando como clínico ou cirurgião, sem vínculo CLT.

Cenário 1: Médico como Pessoa Física pura

Aqui o profissional recebe diretamente em CPF — seja de hospitais (RPA), planos de saúde ou pacientes particulares — e declara tudo no Carnê-Leão e na DAA.

Tributação aplicada

  • IRPF: tabela progressiva, com alíquota marginal de 27,5% sobre o que excede R$ 4.664,68/mês
  • INSS: contribuição como autônomo, limitada ao teto (R$ 951,62/mês em 2025, sobre o teto de R$ 8.157,41)
  • ISS: varia conforme o município, normalmente entre 2% e 5% (consideremos 3%)

Cálculo anual

Item Valor
Faturamento bruto R$ 300.000
(-) Livro-Caixa (aluguel sala, secretária, materiais — estimado 20%) R$ 60.000
Base de cálculo IRPF R$ 240.000
IRPF devido (alíquota efetiva ~22%) R$ 52.819
INSS (teto anual) R$ 11.419
ISS (3% sobre faturamento) R$ 9.000
Total de tributos R$ 73.238
Carga tributária efetiva 24,4%

O médico PF leva para casa cerca de R$ 226.762 por ano, ou R$ 18.897/mês líquidos.

Cenário 2: Médico como Pessoa Jurídica (Lucro Presumido)

Aqui o médico constitui uma sociedade unipessoal ou EIRELI/SLU para prestação de serviços médicos. O Simples Nacional é uma alternativa, mas para clínicos sem equiparação hospitalar costuma cair no Anexo V (alíquotas de 15,5% a 30,5%) — geralmente desvantajoso frente ao Lucro Presumido para esse faturamento. Vamos ao Lucro Presumido, que costuma ser o mais utilizado.

Tributação aplicada no Lucro Presumido

  • IRPJ: 15% sobre 32% do faturamento (presunção para serviços médicos sem equiparação hospitalar)
  • CSLL: 9% sobre 32% do faturamento
  • PIS: 0,65% sobre faturamento
  • COFINS: 3% sobre faturamento
  • ISS: 3% sobre faturamento
  • INSS pró-labore: 11% (descontado) + 20% (patronal)

Cálculo anual

Item Valor
Faturamento bruto R$ 300.000
IRPJ (15% × 32% × 300.000) R$ 14.400
Adicional de IR (10% sobre o que excede R$ 60.000 de lucro presumido — R$ 96.000 − R$ 60.000) R$ 3.600
CSLL (9% × 32% × 300.000) R$ 8.640
PIS (0,65%) R$ 1.950
COFINS (3%) R$ 9.000
ISS (3%) R$ 9.000
Pró-labore anual (R$ 3.000/mês) R$ 36.000
INSS sobre pró-labore (20% patronal + 11% empregado) R$ 11.160
IRPF sobre pró-labore (após deduções) R$ 2.400
Total de tributos R$ 60.150
Carga tributária efetiva 20,0%

O médico PJ leva para casa cerca de R$ 239.850 por ano, ou R$ 19.987/mês líquidos — economia de R$ 13.000/ano sobre a PF.

Cenário 3: Holding médica + PJ operacional

Aqui temos a estrutura completa: uma PJ operacional que fatura os serviços médicos (mesma do Cenário 2) e uma holding patrimonial que detém as quotas da PJ operacional, recebe os lucros distribuídos e administra o patrimônio do médico (imóveis, investimentos, participações).

Como funciona o fluxo

  1. A PJ operacional recebe os honorários e paga IRPJ/CSLL/PIS/COFINS/ISS no Lucro Presumido
  2. Os lucros após tributação são distribuídos para a holding (não para a PF) — isentos atualmente
  3. A holding administra os recursos: investe, adquire imóveis, financia despesas elegíveis
  4. A PF recebe apenas o pró-labore e, eventualmente, distribuições estratégicas

Vantagens tributárias mensuráveis

  • Otimização do pró-labore: pode ser reduzido ao piso, diminuindo INSS e IRPF
  • Aluguéis recebidos pela holding: tributados em 11,33% (Presumido) contra até 27,5% na PF
  • Ganho de capital em venda de imóveis: alíquotas reduzidas via PJ imobiliária dentro da holding
  • Sucessão: ITCMD pago sobre quotas (com desconto via avaliação patrimonial) em vez de inventário judicial

Cálculo anual da estrutura

Item Valor
Tributos da PJ operacional (mesmos do Cenário 2, exceto pró-labore otimizado) R$ 46.590
Pró-labore reduzido (R$ 1.518/mês — piso) + INSS R$ 5.647
IRPF sobre pró-labore R$ 0 (faixa isenta)
Custo de manutenção da holding (contabilidade + obrigações) R$ 6.000
Total anual (tributos + estrutura) R$ 58.237
Carga tributária efetiva 19,4%

Mas o ganho real da holding não está no IR corrente — está nos efeitos patrimoniais cumulativos:

  • Aluguéis de 2 imóveis (R$ 8.000/mês): economia anual de R$ 15.500 vs. PF
  • Sucessão sem inventário: economia estimada de 6% a 20% do patrimônio total
  • Proteção patrimonial frente a ações de responsabilidade civil médica

Quanto um médico paga de imposto por ano em cada cenário?

Resposta direta para quem busca o número:

Cenário Tributos anuais Líquido anual Carga efetiva
PF pura R$ 73.238 R$ 226.762 24,4%
PJ Lucro Presumido R$ 60.150 R$ 239.850 20,0%
Holding + PJ R$ 58.237 R$ 241.763 19,4%

Sobre o mesmo faturamento de R$ 300 mil/ano, a migração de PF para holding representa R$ 15.001 de economia anual em IR direto — sem contar os efeitos sucessórios e patrimoniais.

Quando a holding realmente compensa

A simulação acima mostra um caso de fronteira: faturamento de R$ 25k/mês é o patamar mínimo em que a holding começa a fazer sentido isoladamente. Abaixo disso, apenas a PJ já resolve.

A holding torna-se claramente vantajosa quando o médico apresenta um ou mais dos seguintes elementos:

  • Faturamento mensal acima de R$ 30 mil
  • Patrimônio imobiliário (próprio ou em aquisição) acima de R$ 1 milhão
  • Filhos ou herdeiros — planejamento sucessório
  • Sócios em clínicas, hospitais ou participações empresariais
  • Exposição a risco profissional (cirurgiões, anestesistas, obstetras)

Para médicos com esses elementos, o ganho cumulativo em 10 anos costuma ultrapassar R$ 500 mil entre economia tributária, evitação de inventário e proteção contra perdas patrimoniais.

O impacto da Reforma Tributária neste cenário

Com a entrada em vigor da LC 214/2025, o sistema dual IBS/CBS substituirá PIS, COFINS e ISS gradualmente entre 2026 e 2033. Para médicos, há previsão de redução de 60% nas alíquotas (Art. 130 da LC 214/2025), o que mantém a PJ médica viável. Mas a tributação sobre distribuição de lucros está em discussão no Congresso — e é justamente nesse ponto que a holding ganha relevância adicional, pois permite reorganizar o fluxo de recursos antes de eventuais mudanças.


Trad & Cavalcanti Advogados estrutura holdings médicas em todo o Brasil há quase três décadas, com simulações tributárias personalizadas que consideram faturamento, patrimônio e perfil sucessório de cada profissional. Solicite uma análise específica do seu caso.

➡️ Próximo episódio: Episódio 3 — Como abrir uma holding médica: passo a passo jurídico e prazos reais

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